Qual letras que se veem a bordo da borboleta
fui à luz e vi a tempo a tempestuosa escuridão
Acostumei-me ao comportamento natural das coisas
e então pedi ao amor uma companhia que mudasse o meu percurso
entre a fresta do invisível e a ausência do merecido
vi o que queria ver
Guardei uma gota para lavar-me o suor caseiro
e me fazer sonhar na viagem, pleno de ti
Não sei de onde vens, mas chegaste
qual tetas que se leem lentas
qual borboletas que estalam letras
tangos
mambos
boleros
De Carlinhos Brown
Álbum: Diminuto (2010)
Para ouvir, clique aqui
Quem fala que sou esquisito, hermético
É porque não dou sopa; estou sempre elétrico
Nada que se aproxima nada me estranha
Fulano, sicrano, beltrano
Seja pedra, seja planta
seja bicho, seja humano
Quando quero saber o que ocorre a minha volta
Ligo a tomada, abro a janela, escancaro a porta
Experimento tudo, nunca me iludo
Quero crer no que vem por aí, beco escuro
Me iludo passado, presente, futuro
Reviro na palma da mão o dado
Presente, futuro, passado
Tudo sentir, de todas as maneiras
É a chave de ouro do meu jogo
É fósforo que acende o fogo
Da minha mais alta razão
Na seqüência de diferentes naipes
Quem fala de mim tem paixão.
de Jards Macalé e Waly Salomão
ENCONTRO
O olho caça
na mata
abaixo do umbigo
um abrigo
secreta pátria
a língua avista
bem no centro
do jardim de pêlos
o lugar
caverna
doce e úmida.
(Almandrade)
ÁRIA PIÙ SOAVE
As minhas mãos são pentagramas
acordando sons no teu corpo.
Ponta de dedos ímã o tato se vai
percutindo notas descobrindo poros
um toque de cheiro no silêncio úmido.
(…) O suor dos nossos corpos
enquanto garoa no lençol —
lava por um instante
o tempo de um ritmo sem metrônomo
um cheiro concreto de amêndoas.
(Anibal Beça)
A língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
(Carlos Drummond de Andrade)
***
Alguns gostam de fi-o-fó
Outros de suco de mangaba
Eu, mais modesto,
Gosto mesmo é de uma
Xiranhanhanhanhã em noite de luar.
(Chico Doido de CaicÓ,”69 Poemas de Chico Doido de Caicó (Natal: Sebo Vermelho, 2002)”)
***
Tua língua
é chama e pétala
na minha boca
Uma orquídea
rósea e fulva
se alastra no meu ventre
Selvagem e pura
no meu corpo
te enraízas.
(Luiza Mendes Furia,”Vênus em Escorpião”)
Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?
JOSÉ SARAMAGO (1922-2010), in Os Poemas Possíveis, escritor português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura
De @rodrigofaour: “A impressão é de que o massacre da cultura americana corta certos baratos que poderiam ser muito maiores se o mundo não achasse que ela é um modelo imprescindível” - em “Mundo vasto mundo”, artigo para a Revista O Globo, 01. ago. 2010, página 42
Rodrigo Faour é jornalista, pesquisador musical, consultor do novo MIS e acaba de produzir o CD “Sexo MPB”.